Quando compramos um queijo, para preservá-lo por mais tempo, guardamos na geladeira. Um pão, tentamos deixá-lo o mais fechadinho possível para que ele não seque ou estrague mais rápido, certo? Ou seja, cada alimento tem sua forma de armazenamento que preserva suas qualidades por um determinado tempo.

E com os medicamentos? Precisamos também ter esses cuidados?

A resposta é sim!

Praticamente todo mundo tem medo de ler a bula de um medicamento. Se não medo, receio, ou até preguiça, por geralmente possuir muita informação. Porém, são nessas informações que estão descritas as formas de administração, todos os cuidados necessários para manuseio e melhor forma de armazenamento de cada medicamento.

Já ouviu dizer que não se deve consumir bebidas alcoólicas se estiver tomando antibióticos? Ou ainda, que tal remédio não deve ser tomado de estômago vazio, e que tem que ser ingerido junto com um copo de leite? Conforme nova postura da agência reguladora nacional (ANVISA) que a partir da RDC49/2009 adotou novas regras para a apresentação das informações que compõem a bula, elas devem ser mais simplificadas e direcionadas ao paciente. É também na bula que podemos desmistificar todos os questionamentos acima. De maneira geral, a bebida alcoólica não anula o efeito de todos os medicamentos. Porém, pode afetar de forma impactante o tempo de ação, a biodisponibilidade e os efeitos colaterais relacionados as medicações. A ingestão de álcool promove o aumento da diurese (excreção de líquidos pela urina) e a permanência na corrente sanguínea do fármaco pode ser diminuída. Outra ação do álcool em nosso organismo é que ele pode competir com a metabolização a nível hepático, aumentando a toxicidade dos dois e de outras substâncias que podem estar presentes na corrente sanguínea. Como exemplo podemos citar a classe dos antibióticos, um antibiótico de amplo espectro que deveria ser administrado de 8/8h pode ter seu efeito drasticamente reduzido ou apresentar uma série de reações adversas se administrado juntamente com álcool. Atualmente a indústria farmacêutica desenvolveu, através de anos de pesquisa, diversas gerações de classes de antibióticos para aplicações mais específicas. Essas novas classes apresentam algumas diferenças com relação a administração se comparados aos de amplo espectro das primeiras gerações. Alguns destes, possuem a possibilidade de exercer a ação terapêutica do fármaco de forma concomitante a ingestão moderada de álcool.

Resumindo a questão do álcool, o uso de medicação e álcool deve ser observada na bula do fármaco, em parte não há proibição em consumir bebidas alcoólicas junto a alguns tratamentos, porém, é importante ressaltar que a grande parte dos antibióticos não gosta de álcool em excesso, e se há alguma limitação do fígado, os cuidados devem ser redobrados. Quanto a ingestão de antibióticos com estômago vazio, vai depender muito de qual medicação e forma de apresentação que será administrada – alguns necessitam que o estômago esteja vazio, já para outros a observação de não estar com o estomago vazio é indicado pela velocidade de absorção e/ou evitar a agressão da mucosa do digestiva pelo fármaco. Para obter todas as informações necessárias para cada medicamento, busque sempre pela bula do mesmo, lá sempre estará escrito quanto a proibição ou não de bebidas alcoólicas, a recomendação de ingestão, entre outras diversas orientações.

Outra informação importante, você sabia que medicamentos podem ser sensíveis a luz? E ao oxigênio? E a temperaturas extremas? Você pode não ter reparado, mas aquelas cápsulas que vem em blisters escuros envolvendo-as, são para proteger da luz. Um medicamento com recomendações de ser guardado em geladeira, é porque sofre reações de degradação da sua molécula ativa em temperaturas mais altas, e o armazenamento em geladeira ou até freezer se faz necessário para evitar essa degradação.

Por isso, novamente, é tão importante que se leia as recomendações descritas na bula de cada medicamento. Lá também iremos saber exatamente como esse remédio deverá ser guardado e em até quanto tempo deve ser consumido após aberto, informações sobre interações com outros medicamentos, entre outros itens importantes. E se você perdeu ou descartou a bula que veio na caixa do seu medicamento, saiba que qualquer bula pode ser encontrada na internet também (digite nome do medicamento + bula em sites de busca).

Por exemplo, o Pulmozyme (alfadornase), medicamento bastante utilizado por pacientes com fibrose cística, tem suas recomendações específicas: O medicamento é sensível a temperaturas mais altas e também à luz. É importante que o mesmo seja armazenado de forma correta, para que seja garantida sua eficácia total quando for administrado.

E todos nós, pacientes crônicos que necessitamos de medicamentos para viver, sabemos o quanto é importante com que cada nebulização, cada dose de insulina aplicada, cada enzima ingerida funcione com toda sua capacidade (a degradação de medicamentos pelas condições citadas acima pode fazer com que, além da perda de eficácia – o medicamento não cumprir seu papel conforme esperado – pode também gerar o que chamamos de impurezas, moléculas decorrentes de reações químicas, que podem ou não ser maléficas ao nosso organismo).

Com isso, se faz importante e necessário o trabalho sério de farmacêuticos, químicos, bioquímicos, biólogos no desenvolvimento e acompanhamento de medicamentos nas indústrias farmacêuticas e pesquisas em universidades. O trabalho destes profissionais se dá através da descoberta de uma nova molécula, ou a partir de algo que já temos por outra rota sintética, ou ainda a observação de que um medicamento já existente para tratar “x”, também pode tratar “y” (esta modalidade de tratamento é conhecida como uso “off-label”). Além disso, ainda temos toda a parte de análise e controle de qualidade desses produtos, em que cada lote produzido é testado e só sai das indústrias se aprovado sob estreitas especificações e controle rígido da Anvisa, nosso órgão regulador.

Essa é uma das justificativas do preço de certos medicamentos ser tão elevado. Seu tempo de pesquisa, desenvolvimento, até chegar ao consumidor é longo e exige elevados investimentos, além das necessidades e cuidados de fabricação. Porém, em nosso país, temos uma ferramenta poderosíssima que pode nos auxiliar com esta parte: o SUS. O Sistema Único de Saúde foi criado com uma das premissas de fornecer todos os medicamentos e insumos necessários para tratamento de pacientes com doenças crônicas, garantindo que cada um tenha acesso completo ao que precisam para a efetiva manutenção de sua saúde, contudo, este tema deverá ser abordado em outra oportunidade.

Enfim, durante o desenvolvimento de medicações, inúmeras pesquisas e testes são realizados para se obter a melhor combinação possível entre ação terapêutica e efeitos adversos. Todas as informações obtidas durante este período de pesquisa e obtenção do fármaco estão disponibilizadas para consulta na bula do medicamento. As indústrias possuem canais diretos de atendimento aos pacientes onde dúvidas que não foram sanadas na leitura da bula podem ser respondidas por profissionais da área da saúde e altamente capacitados para esta função.

Fica o alerta, leia bula!

 

Marina Oliveira - Mestre em Química
Felipe Ferrarini Machado - Farmacêutico.