Muitas pessoas, quando recebem o diagnóstico de uma doença crônica, passam por um vendaval de sentimentos que muitas vezes desequilibra o norte de suas vidas. São sentimentos e ideias que lembram as fases do luto, de Elisabeth Kluber Ross, como negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Em geral, as doenças crônicas trazem consigo limitações de atividades e planos de vida sonhados e algumas vezes a brevidade da vida.

Há uma relação íntima entre doenças crônicas (como pneumopatias, doenças oncológicas, fibrose cística, diabetes, cardiopatias, doenças neurológicas...) e transtornos mentais. De um lado, temos a capacidade que cada indivíduo tem de suportar o sofrimento emocional que a doença pode trazer, a intensidade e a  “amplificação” do sofrimento por características de personalidade. O stress e a ansiedade, em certa medida são benéficos, pois tornam a pessoa mais adaptada às intempéries emocionais do dia-a-dia. Entretanto, o stress em demasia pode ser "desadaptativo" e levar a transtornos psiquiátricos, principalmente aqueles depressivos e de ansiedade. 

De outro lado, a constatação de que a maior parte das doenças crônicas gera inflamação subclínica (não sintomática), que cronicamente leva à disfunção neuronal e aumento do risco das doenças psiquiátricas já citadas e doenças de memória, como Alzheimer, por exemplo.

Não podemos esquecer que não há saúde sem saúde mental. Um estudo demonstrou que 28% das doenças que causam prejuízos às pessoas são oriundas de doenças neuropsiquiátricas (depressão, transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia...). Estudos mais recentes da neurociência demonstram que a inflamação subclínica gerada pelas neuropsicopatias podem piorar doenças crônicas ou precipitar o surgimento de doenças crônicas (maior risco de cardiopatia, demência etc.). 

Diante disso o que podemos fazer? O “ciclo" da inflamação - geradora ou consequência de doenças crônicas e mentais -  tem importante melhora com atividade física orientada e individualizada com educador físico. A nutrição adequada também é um importante aliado anti-inflamatório e antioxidante, melhorando e prevenindo ambas as doenças. Não podemos esquecer de organizar a rotina, sono adequado e eliminar hábitos como tabagismo, consumo de álcool e drogas. 

Na medida do possível, e ainda mais agora em situação de isolamento social, precisamos manter vínculos virtuais ou próximos com família e grupos sociais. Trabalhos recentes demonstram o potencial de diminuição de risco de doença mental e neuropsiquiátrico em todas as faixas etárias quando são fomentados estes vínculos. Lembramos o eminente papel de associações de portadores de doenças crônicas, que aglutinam esperanças e informações de qualidade na resolução de problemas e expectativas de tratamento. 

O importante disso tudo é que temos como aliviar todos estes sofrimentos físicos e psíquicos. Já dizia um antigo aforisma: "Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre”. Ao menor sinal de adoecimento psíquico é importante procurar, o quanto antes, ajuda especializada. Na maior parte das vezes o melhor tratamento é a combinação de medicação e psicoterapia. Em algumas situações, após avaliação médica, pode ser indicada somente a psicoterapia. Situações mais graves, com pensamentos e ideação suicida, demandam urgência ou emergência médica e não podem aguardar. A solução pode estar tão próxima quanto imaginamos.

 

João Paulo de O. Branco Martins

Médico Psiquiatra e Psicogeriatra CRM/SC: 18062 RQE: 12342 e 15797

 

REFERÊNCIAS:

  1. Prince, M. et al. No health without mental health. Lancet 370, 859–877 (2007).

  2. Zhang, J., Yao, W. & Hashimoto, K. Current Neuropharmacology Send Orders for Reprints to Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Brain-derived Neurotrophic Factor (BDNF)-TrkB Signaling in Inflammation-related Depression and Potential Therapeutic Targets. Curr. Neuropharmacol. 14, 721–731 (2016).