"É, eu não tenho mesmo do que reclamar… só de não trabalhar, né. Pensa, de 2012 a 2019 eu não trabalhei. É muita coisa."

Se é o trabalho que dignifica o homem, há quem ouse dizer que a dignidade faltou a Kátia Regina Bohn durante esses 7 anos de afastamento. Quem diz, não conhece a mulher que ela é. Em Brusque, terra onde nasceu, Kátia estudou e vive todos os dias com honra, alegria e bom humor. Sem reclamar da vida, a mulher de olhos azuis traz no corpo as marcas de todas as batalhas ganhas... E não se arrepende de nada.

O início da vida de Kátia não difere da maioria das pessoas com fibrose cística: diarreia, dificuldade de ganho de peso, refluxo e um mar de incertezas. Recebeu o diagnóstico aos nove meses de vida e recebia atendimento em Florianópolis e Curitiba, capital do Estado do Paraná. Mesmo com a dedicação de duas equipes e o empenho da família, a fibrose cística avançou e tomou espaço no corpo e na vida de Kátia.

Em 2013 teve sua primeira internação grave por ação de uma bactéria chamada mycobacterium abscessus, quando fez, inclusive, tratamento para tuberculose na tentativa de cessar a infecção. No ano seguinte, novamente foi hospitalizada, desta vez por uma obstrução intestinal chamada fecaloma. Precisou do centro cirúrgico para sanar a obstrução. Mesmo com a solução cirúrgica, precisou passar alguns dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Apesar de ter sido um acontecimento intenso e prolongado, Kátia consegue falar sobre sem esmorecer, pois sabe que o futuro a recompensou por não se deixar abater ou desistir.

Seja pelo curso natural da vida, pelas intercorrências hospitalares ou por qualquer fator imensurável, Kátia precisou de mais uma dose de força para seguir adiante: em 2016, com os pulmões infectados e sem antibióticos disponíveis para tratar as bactérias pseudomonas aeruginosa e staphylococcus aureus - dois patógenos de possível infecção recorrente na fibrose cística -  entrou para a fila de transplante pulmonar bilateral. Sua equipe de tratamento lhe informou que era o único meio de seguir a sua vida com qualidade e manter a autonomia que tanto desejava.

Mudou-se para Porto Alegre, a uma quadra de distância da Santa Casa de Misericórdia, onde o transplante seria feito pela equipe do hospital. A chamada para o seu novo órgão veio no dia 30 de julho de 2017, às 8h45, depois de uma noite de muita diversão e dança com a mãe Lionete e o namorado em um baile gaúcho, que só terminou às 4 da manhã. Juntou seus pertences e, após um ano e 25 dias na fila de espera, rumou à Santa Casa.

Acordou dois dias depois da operação sem conseguir ficar em pé e conectada a vários tubos e eletrodos. Ainda que fosse uma visão digna de filme, era o recomeço de uma vida e mais uma lufada de esperança. A recompensa pela coragem e determinação de uma mulher no início da sua vida adulta. Naquele mesmo ano no Brasil, outras 111 pessoas receberam novos pulmões inflados de carga para seguirem sua vida com as próprias pernas e com o próprio fôlego, como Kátia estava pronta a fazer.

Para conseguir cuidar de si trancou a faculdade de pedagogia. A vida laboral, que começou aos 16 anos, também precisou ceder espaço para o intensivo de saúde. O currículo é extenso: iniciou em 2012, com estágio na biblioteca da universidade, recepcionista, assistente de coordenação de curso, até que precisou ser afastada no final daquele ano. Retomou em 2019, na secretaria acadêmica e depois como auxiliar pedagógica. O trabalho, intimamente ligado ao seu caminho profissional, agora deve ter os objetivos revistos: devido ao transplante, Kátia precisa ter mais cuidado no contato com pessoas que receberam algumas vacinas específicas, feitas com vírus vivo atenuado, o que limita o convívio com crianças, sua maior paixão.

De tudo aquilo que precisou pausar, a falta maior era do trabalho. Sentia falta de se sentir útil, significante, produtiva. Se vai voltar a cursar pedagogia ou escolher outro caminho, a tranquilidade e alegria de Kátia não sabem indicar, mas seguirá firme. Quem sabe uma loja online de vestuário em Brusque, cidade já conhecida pela grande variedade nesse ramo... "Eu não sei no que eu quero trabalhar, assim, mas eu quero. Preciso fazer alguma coisa. Quero ter as minhas coisas, o meu dinheiro. É bom".