“Oooi! Como você tá diferente!” Eram os olhinhos atentos e o rosto curioso de Maya que invadiam a tela do celular de Jeferson Alves para me dar boas vindas. Que fofura essa menina que me confundiu com uma pessoa por ela querida e já veio logo conversar. E olha que ela nem sabia que seria o principal assunto entre mim e seu pai.

Há cinco anos Jeferson vivia o mais profundo desafio de sua vida: a paternidade e a presença de Maya em seu dia a dia. “Ela tem uma personalidade forte e é muito decidida”, relatou o pai, com um quase escondido e todo orgulhoso sorriso. 

Ser pai foi uma decisão amadurecida após 14 anos de reflexões e relacionamento com Luciana, sua esposa. Durante três anos passaram pelo processo de adoção de uma criança, mas infelizmente as questões burocráticas que permeiam esse processo ainda são muito demoradas no Brasil. A falta de profissionais das áreas de Psicologia e Serviço Social para atuação no judiciário é um dos fatores cruciais para essa demora. Demora que os fez mudar de ideia e optar pela inseminação artificial por meio de um banco de esperma.

O processo complexo, oneroso, hormonal e psicologicamente desgastante da inseminação artificial poderia ser abreviado com a desburocratização e humanização dos processos de adoção no Brasil. É contrassenso que pessoas aptas a adotar sejam desestimuladas por freios de burocracia. A adoção não traz somente a cura da ferida social do abandono… Traz a alegria do encontro, a maravilhosa sensação de salvar e salvar-se. 

Mas, como falamos de bons desfechos, Maya chegou por vias oblíquas, tão desejada e amada como deve ser. 

Por mais que Jeferson já conhecesse as rotinas médicas e internações desde a primeira infância e convivesse com problemas de saúde pulmonar, avaliado equivocadamente como síndrome dos cílios imóveis, o diagnóstico de fibrose cística chegou apenas aos 30 anos, graças às pesquisas e leituras que fazia pela internet. A mente de engenheiro civil ficou curiosa com tudo que leu, e decidiu que era preciso fazer o teste do suor, que diagnosticou a síndrome. Dali em diante, todo tratamento que fazia desde que nasceu mudou, e seus pulmões já não podiam mais dizer que tinham a síndrome dos cílios imóveis.

Uma das consequências da síndrome em homens é a infertilidade, pois o gene causador da fibrose cística também altera a formação de parte do sistema reprodutor masculino. A maioria dos homens com FC não possui os ductos deferentes em ambos os lados, o que impede a saída dos espermatozóides, fazendo com que seja preciso lançar mão de reprodução assistida. Essa é a condição de Jeferson.

Assim, o número de medicações, rotina de exercícios e cuidados ganhou novos formatos e intensa frequência, bem como seus questionamentos acerca da infertilidade e todas as alternativas para realizar o seu desejo de viver a felicidade e os conflitos da paternidade.

Com a paternidade, o coração e a racionalidade de Jeferson fizeram uma reunião e resolveram trabalhar juntos, afinal uma de suas grandes preocupações é  “não ver a filha crescer”, e por isso passou a se cuidar ainda mais, diminuir a carga horária de trabalho e seguir mais à risca seu tratamento. Todas as suas ações refletem em apenas uma grande internação desde que Maya nasceu. Embora uma só, foram vinte e um dias internado e longe da menina dos olhos decididamente castanhos.

Olhos castanhos de Maya que não acompanham as dinâmicas do tratamento de seu pai e que ainda não reconhecem as artimanhas que a fibrose cística trava na vida de seu companheirão de todas as horas. Um dia Maya vai saber que Jeferson, por acreditar que todas as pessoas têm o direito de viver suas escolhas, decidiu subir sozinho em sua moto, mas com a garupa prontinha para Maya se aventurar com ele mundo afora em algum momento da vida.

 

Texto: Klay Silva

Estudante de jornalismo voluntária da ACAM